um bocadinho menos que nada
chove lá fora. está o frio que quase não esteve no inverno e é primavera. passou já um quarto deste ano e foi um turbilhão de chãos cheios de vidros partidos e janelas nocturnas abertas, de par em par, para as estrelas. sentada, numa cadeira junto de um janelão grande, acompanha o anoitecer. está frio. sim. está frio. as luzes mascaradas daquilo que foram memórias de dias diferentes, dias quentes e bonitos, cheios de sol passam-lhe como relâmpagos diante de olhos de pálpebras cerradas. podia acreditar que se as cerrasse com força conseguia ver o sol. ouvir os risos que por si só arrancam sorrisos. "se espetares um dedo e empurrares a pálpebra com força contra o olho consegues ver luzes, tunéis, imensidões. quando voltares a abrir os olhos o mundo parecer-te-á diferente." chove lá fora. o gotejar contínuo da chuva, nos beirais, nas poças que já apresentam diâmetros consideráveis de longos dias de chuva, nos vidros da janela, nas cordas da roupa. a chuva nas árvores. as urtigas grandes e viçosas que crescem nas traseiras dos prédios, ao "deus-dará". "será que se tocar nelas vai ser como 'dantes'?". afasta ideias que possam parecer um regresso ao passado. percorre os canteiros de trevo na esperança de encontrar um de quatro folhas. "podia só ser tudo diferente." também podia não ser, não é? afinal de contas, não é nada mau. percorre uma lista de pessoas e tenta perceber como é possível que nos deixem de dizer tanto em tão pouco tempo. a ausência de sons pode explicar muita coisa. "sabes que as empatias são como as fases. mudam." podia dizer que se sentia sozinha. podia. mas a verdade é que não se sentia sozinha. a verdade é que os dedos daquela mão diziam tudo o que havia para dizer. "estamos aqui. cuida bem de nós." podia sorrir. podia. se a música não fosse tão melancólica. podia fugir. podia. se o caminho não fosse forrado a vidros partidos e lâminas velhas. ou se o medo não se escondesse atrás de um tronco velho. "não tenhas medo, bacorinho, não existem papões!" podia ler todos aqueles livros. "vês? é só um velho tronco de árvore que ficou torcido e feio com o tempo." podia pensar no velho poço, no meio das árvores, de onde saem todos aqueles medos e pensamentos indesejados. mas também podia ver o sol lá fora. podia, se não chovesse. quer esquecer todos os tormentos e sorrir. quer andar descalça na terra fria. mandar-se ao chão sem ter medo de se sujar. ou receio de todos esses bichos que forram o chão. quer rebolar na erva, como fazia quando era pequena, quando conhecia todos os vizinhos. quando bebia água nas canecas - uma para cada dia da semana, mais do que uma vez por dia - da vizinha, quando comia pão caseiro pequenino à sua conta e medida, acabadinho de sair do forno. de ser dar com plantas e bichos. de fazer parte do ecossistema. "sabes que já não é assim. que já não pertences a essa natureza. sabes que já não és ninguém. estás longe demais." e a melancolia ganha terreno. uma lágrima - solitária- "não podes criar algo diferente de ti mesma." escorre-lhe pelo rosto. - podia só ser tudo diferente. - um bocadinho menos que tudo. um bocadinho mais que nada. e então lembra-se das lengalengas palermas que ditava quando ainda era ouvida. quando ainda dialogava.
"cri cri - faz-mum bolo!
cró-cró - não tenho sal
cri-cri - mandó buscar!
cró-cró - não tenho por quem
cri-cri - mandó rapaz
cró-cró - o rapaz está manco
cri-cri - quenho mancou?
cró-cró - foram as pedras
cri-cri - qué das pedras?
cró-cró - estão na água
cri-cri - qué da água?
cró-cró - beberam os bois
cri-cri - qué dos bois?
cró-cró - estão no milho
cri-cri - qué do milho?
cró-cró - comeram as galinhas
cri-cri - qué das galinhas?
cró-cró - estão a pôr ovos
cri-cri - qué dozovos?
cró-cró - comeram as velhas
cri-cri - qué das velhas?
cró-cró - estão na missa
cri-cri - qué da missa?
cró-cró - está no missal
cri-cri - qué do missal?
cró-cró - está na igreja
cri-cri -faz-muuuuuum booooooooooloooo!"
"cri cri - faz-mum bolo!
cró-cró - não tenho sal
cri-cri - mandó buscar!
cró-cró - não tenho por quem
cri-cri - mandó rapaz
cró-cró - o rapaz está manco
cri-cri - quenho mancou?
cró-cró - foram as pedras
cri-cri - qué das pedras?
cró-cró - estão na água
cri-cri - qué da água?
cró-cró - beberam os bois
cri-cri - qué dos bois?
cró-cró - estão no milho
cri-cri - qué do milho?
cró-cró - comeram as galinhas
cri-cri - qué das galinhas?
cró-cró - estão a pôr ovos
cri-cri - qué dozovos?
cró-cró - comeram as velhas
cri-cri - qué das velhas?
cró-cró - estão na missa
cri-cri - qué da missa?
cró-cró - está no missal
cri-cri - qué do missal?
cró-cró - está na igreja
cri-cri -faz-muuuuuum booooooooooloooo!"

blah
sleepy
thoughtful
peaceful