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Mar. 22nd, 2008

um bocadinho menos que nada

chove lá fora. está o frio que quase não esteve no inverno e é primavera. passou já um quarto deste ano e foi um turbilhão de chãos cheios de vidros partidos e janelas nocturnas abertas, de par em par, para as estrelas. sentada, numa cadeira junto de um janelão grande, acompanha o anoitecer. está frio. sim. está frio. as luzes mascaradas daquilo que foram memórias de dias diferentes, dias quentes e bonitos, cheios de sol passam-lhe como relâmpagos diante de olhos de pálpebras cerradas. podia acreditar que se as cerrasse com força conseguia ver o sol. ouvir os risos que por si só arrancam sorrisos. "se espetares um dedo e empurrares a pálpebra com força contra o olho consegues ver luzes, tunéis, imensidões. quando voltares a abrir os olhos o mundo parecer-te-á diferente." chove lá fora. o gotejar contínuo da chuva, nos beirais, nas poças que já apresentam diâmetros consideráveis de longos dias de chuva, nos vidros da janela, nas cordas da roupa. a chuva nas árvores. as urtigas grandes e viçosas que crescem nas traseiras dos prédios, ao "deus-dará". "será que se tocar nelas vai ser como 'dantes'?". afasta ideias que possam parecer um regresso ao passado. percorre os canteiros de trevo na esperança de encontrar um de quatro folhas. "podia só ser tudo diferente." também podia não ser, não é? afinal de contas, não é nada mau. percorre uma lista de pessoas e tenta perceber como é possível que nos deixem de dizer tanto em tão pouco tempo. a ausência de sons pode explicar muita coisa. "sabes que as empatias são como as fases. mudam." podia dizer que se sentia sozinha. podia. mas a verdade é que não se sentia sozinha. a verdade é que os dedos daquela mão diziam tudo o que havia para dizer. "estamos aqui. cuida bem de nós."  podia sorrir. podia. se a música não fosse tão melancólica. podia fugir. podia. se o caminho não fosse forrado a vidros partidos e lâminas velhas. ou se o medo não se escondesse atrás de um tronco velho. "não tenhas medo, bacorinho, não existem papões!" podia ler todos aqueles livros. "vês? é só um velho tronco de árvore que ficou torcido e feio com o tempo." podia pensar no velho poço, no meio das árvores, de onde saem todos aqueles medos e pensamentos indesejados. mas também podia ver o sol lá fora. podia, se não chovesse. quer esquecer todos os tormentos e sorrir. quer andar descalça na terra fria. mandar-se ao chão sem ter medo de se sujar. ou receio de todos esses bichos que forram o chão. quer rebolar na erva, como fazia quando era pequena, quando conhecia todos os vizinhos. quando bebia água nas canecas - uma para cada dia da semana, mais do que uma vez por dia - da vizinha, quando comia pão caseiro pequenino à sua conta e medida, acabadinho de sair do forno. de ser dar com plantas e bichos. de fazer parte do ecossistema. "sabes que já não é assim. que já não pertences a essa natureza. sabes que já não és ninguém. estás longe demais." e a melancolia ganha terreno. uma lágrima - solitária- "não podes criar algo diferente de ti mesma." escorre-lhe pelo rosto. - podia só ser tudo diferente. - um bocadinho menos que tudo. um bocadinho mais que nada. e então lembra-se das lengalengas palermas que ditava quando ainda era ouvida. quando ainda dialogava.
"cri cri - faz-mum bolo!
cró-cró - não tenho sal
cri-cri - mandó buscar!
cró-cró - não tenho por quem
cri-cri - mandó rapaz
cró-cró - o rapaz está manco
cri-cri - quenho mancou?
cró-cró - foram as pedras
cri-cri - qué das pedras?
cró-cró - estão na água
cri-cri - qué da água?
cró-cró - beberam os bois
cri-cri - qué dos bois?
cró-cró - estão no milho
cri-cri - qué do milho?
cró-cró - comeram as galinhas
cri-cri - qué das galinhas?
cró-cró - estão a pôr ovos
cri-cri - qué dozovos?
cró-cró - comeram as velhas
cri-cri - qué das velhas?
cró-cró - estão na missa
cri-cri - qué da missa?
cró-cró - está no missal
cri-cri - qué do missal?
cró-cró - está na igreja
cri-cri -faz-muuuuuum booooooooooloooo!"
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Sep. 10th, 2007

a rosa

atravessava a rua segura que ao chegar à esquina tudo ia mudar. a rua era longa e o caminho parecia nunca mais acabar, cada passo parecia dado em vão porque a distância parecia não diminuir. a esquina continuava lá, ao longe, a perder de vista. era uma rua larga e movimentada o suficiente para não conseguir ouvir os próprios pensamentos. deu consigo a imaginar que, pelo menos, não fazia eco e não ouvia uma réplica dos seus passos seguros. sim, estava segura de que tudo mudaria ao virar da esquina e por isso caminhava com um andar firme e confiante. a ânsia de chegar àquela esquina crescia dentro de si como um turbilhão, como um tornado. de início era só uma dormência ligeira no pé esquerdo, depois começou a sentir algo estranho no pé direito e assim sucessivamente até se sentir assolada por uma espiral ascendente de sentimentos e contradições. a respiração acelerou bruscamente e o coração apertou-se, o estômago, esse, era apenas um nó no meio do sistema digestivo. apertava a rosa enquanto os seus espinhos vivos se enterravam na carne da palma da mão, algures entre a linha da inteligência e a linha da vida, e lhe dilaceravam a pele soltando gordas gotas de sangue. naquele preciso momento não se apercebia sequer da presença da pequena rosa vermelha, que lhe haviam deixado na recepção do hotel sem qualquer bilhetinho associado, pois a esquina tomava forma na sua mente de tal forma que nada mais lhe parecia real. aquela esquina era a sua meta e atingi-la tornara-se numa pequena obsessão, algo comum em quem sofre de distúrbios obsessivos-compulsivos. sente algo vibrar dentro da mala que transporta a tiracolo e, por momentos, considera não perder tempo a procurar o telemóvel para o atender, perde alguns segundos nesta decisão e acaba por decidir atender pois pode ser algo importante, afinal, encontrava-se em lisboa em trabalho e não podia descurar este aspecto da sua vida numa altura em que a sua carreira se encontra em plena ascensão. (margarida encontra-se em lisboa para presidir a um par de reuniões sobre um novo produto, inovador na sua área, que a sua empresa está a introduzir no mercado português. nos momentos que antecederam a sua descida do quarto de hotel, nessa manhã, e a sua chegada à recepção deste, onde alguém lhe deixara uma rosa, sem qualquer bilhete anexado e apenas com a indicação daquela esquina e de uma hora específica para lá comparecer, margarida não pensava noutra coisa que não a apresentação do artigo, cem porcento cuidada, linguagem específica mas ao mesmo tempo acessível e acima de tudo sem qualquer falha que pudesse deixar o cliente reticente. equacionava as inúmeras perguntas a que eventualmente teria de responder e quais as respostas inequívocas a dar. margarida é a melhor na sua empresa a divulgar os produtos, a torná-los tão desejáveis quanto o são em utilidade.) procura por um momento, que lhe parece longo demais, o telemóvel que ao sair da mala já não toca e apresenta no visor a seguinte mensagem: "1 chamada não atendida". margarida acede ao registo e verifica que não conhece o número ao qual tenta ligar de volta. (pode, de facto, ser o cliente com alguma dúvida ou até a solicitar alteração da hora combinada para a reunião.) o telemóvel chama do outro lado enquanto a sua impaciência cresce, a esquina continua lá ao longe. ouve então uma voz, no que lhe parece ser já a mensagem da caixa de correio de voz. do outro lado ouve uma voz masculina a murmurar a canção "love me tender", a qual não reconhece de imediato. aperta com mais força a rosa que traz na mão, fazendo o sangue jorrar novamente, e apercebe-se que do outro lado desligaram. tem a certeza que o seu interlocutor era o autor do jogo. sim, porque para ela, a rosa deixada na recepção do hotel, que aperta na sua mão mutilando-a subtilmente, a indicação daquela esquina e daquela hora, não passavam de um jogo. e agora aquele telefonema. um jogo de sedução. a esquina parece-lhe mais perto que nunca e decide estugar o passo. quando se encontra a menos de cinco metros de virar a esquina para a sua esquerda sente de novo o vibrar do telemóvel. desta vez não hesita e corre a procurá-lo no meio dos objectos inúteis e inanimados que carrega na sua mala. atende justamente quando está a menos de um metro da esquina e o que ouve deixa-a em pânico: "amo-te e tenho uma espingarda apontada à tua cabeça.". no momento seguinte desvanece-se a tentar distinguir três sons distintos, enquanto deixa cair a rosa vermelha, ao virar da esquina, os sons eram: o "tut tut tut tut", da chamada desligada, as badaladas do relógio da torre da igreja que anunciam as dez horas e o som ensurdecedor do tiro de espingarda certeiro com que lhe desfizeram o rosto.
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Aug. 23rd, 2007

a espera

acendo um cigarro, distraidamente, enquanto olho lá para fora. a vida corre célere ao anoitecer. os carros parecem brinquedos, atafulhados numa amálgama de cores e de sons, no lusco fusco do fim do dia. as pessoas correm para o doce voltar a casa. não gosto de esperar. apercebo-me da extremidade laranja do cigarro que encurta à medida que vou sorvendo o ar através da sua estrutura. quando vejo as coisas daqui parece que estou noutro sítio, num universo paralelo. ninguém dá por mim e eu vou vendo tudo. ouço os sons, lá fora, lá no outro mundo, e eu, aqui, pequenina e sossegada perdida nas minhas fantasias. sonhar é bom, faz-nos sentir importantes. faz-nos acreditar que realmente podemos dar algum sentido à vida. apago o cigarro num cinzeiro improvisado feito de uma tampa de um frasco e brinco com a cinza. olho de novo para o fundo da rua e nada. não vem ninguém. os carros continuam brinquedos, atafulhados numa amálgama de cores e de sons, no lusco fusco do fim do dia. enquanto ainda há luz, daqui, vejo a serra. quando escurece tenho medo. ouço ao longe o latir de um cachorro e lembro as saudades. um gato mia na procura de companhia e uma família solta, algures, uma gargalhada colectiva. continuo sozinha e deixo a escuridão invadir todo o espaço circundante. não me sinto mais sozinha que o normal. sinto-me sozinha de maneira diferente, mas não mais que o normal.no fundo, podia até estar rodeada de gente, eventualmente, sentir-me-ia mais sozinha do que sinto agora. passa uma corrente de vento por mim e arrepia-me fazendo-me aperceber que já anoiteceu por completo. a lua lá no alto como rainha do céu nocturno. eu ainda espero. não gosto de esperar, mas esperar não é mau de todo. esperar por uma coisa boa, sabendo que ela tem um certo grau de certeza, é bom. acendo outro cigarro, para queimar o tempo, enquanto me apercebo que gosto de estar sozinha. os dias têm passado rápido demais e começo a pensar novamente na relatividade do tempo. o tempo, essa invenção humana, como tantas outras imposições da sociedade. apago o cigarro com um movimento mecânico enquanto brinco com a cinza. todos vemos o tempo como queremos ver ou como os momentos nos fazem vê-lo. sozinha, aqui, dei comigo a pensar nas saudades e de como o tempo se arrastava. sozinha, aqui, dei comigo a pensar em ti e em como o tempo passa rápido. com a noite os carros foram abandonando a estrada para o conforto das garagens. olho para o fundo da rua e um par de luzes trémulas aquecem o meu olhar. estás a chegar e contigo vai-se a solidão e a noção do tempo.
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Aug. 20th, 2007

"Quando passo a mão no teu cabelo esvai-se de mim a melancolia..."

acordo noite dentro, no meio de sonhos inquietos. olho para o lado. olho para o lado e não te vejo. estavas aqui há tão pouco tempo. olho para o lado e não te vejo. a cama parece um deserto quando não estás. estico os braços e não consigo abarcar os limites. por momentos penso que te vejo, mas é só mais uma miragem. olho para o lado, olho para o lado e não te vejo. ainda há tão pouco aqui estavas. adormecia nos teus braços. com a cabeça no teu ombro direito e o meu corpo a contornar o teu. falava contigo adormecendo nos intervalos. o meu braço esquerdo debaixo do teu pescoço. a mão direita a acariciar o teu cabelo. o gesto que te adormece. falo-te baixinho. voz quente, palavras doces. quero fugir daqui, levar-te para longe e não voltar. uma ilha deserta, uma praia qualquer, um barco perdido no oceano. que importa o sítio se posso passar o meu braço esquerdo por baixo do teu pescoço e a mão direita pelo teu cabelo? não importa onde nem quando. beijo-te a testa, equilíbrio de energias, dizem, e a ponta do nariz. um olhar terno invade-me a expressão. adormeces, dormes um sono descansado, sem sonhos. não te posso acordar, tens que dormir. retiro o meu braço devagarinho e beijo-te a testa em tom de despedida. observo-te atenta, certificando-me de que não te acordo, enquanto me liberto das cobertas. olho-te novamente e afasto-me sem olhar para trás. se olhar para trás fico presa em ti e não consigo afastar-me. mesmo sabendo que tem que ser. agora tem que ser. o cansaço vence-me e encosto-me para dormir. olho para o lado, olho para o lado e não te vejo. acordo noite dentro, no meio de sonhos inquietos. olho para o lado, olho para o lado e não te vejo. amanhã olhar-te-ei novamente. passarei o meu braço esquerdo por baixo do teu pescoço e a mão direita pelo teu cabelo. falo-te baixinho enquanto adormeces sossegado. o meu corpo quente a contornar o teu. a tua cabeça encostada ao meu peito. adormeço. acordo noite dentro, no meio de sonhos. olho para o lado, olho para o lado e vejo-te sossegado. dormes com um sorriso definido. e eu...sonho-te.

Estava postado noutro lado, mas veio para aqui também :)
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